Por que brasileiros não gostam da literatura fantasia?

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N/T: Olá leitores, estou reblogando essa postagem do blog Livros de Fantasia por que achei muito bom, e achei uma boa resposta da autora a diversas críticas que muitas pessoas dão à esse gênero de literatura. Espero que gostem do reblog, e que faça muitos pensarem sobre esse gênero literário e perderem um pouco do preconceito que muitos tem com o mesmo.

Por que Brasileiros não gostam de literatura de fantasia? Por Melissa de Sá.

Fantasia é só um mundo diferente que na verdade fala dos problemas do nosso próprio mundo.

Na semana passada a escritora Ruth Rocha causou furor literário ao dizer que Harry Potter não era literatura e sim uma modinha que “vai passar” (leia a declaração na íntegra aqui). Desde então colunas e posts de tons mais variados têm aparecido na internet para refutar, defender ou polemizar a escritora de literatura infantil. Mas eu acho que essa questão vem mais ao fundo: por que, afinal, brasileiro não gosta de literatura de fantasia?

Vamos entender isso.

Eu me lembro de um professor na faculdade que dizia que literatura é o que os poderosos dizem que é literatura. Ou seja, o que a academia, os autores consagrados, a crítica dita “séria” nos diz que é literatura.

No Brasil, esses meios nunca dizem que literatura de fantasia é literatura.

Existe uma fobia de fantasia entre nós. Dizer que você gosta de literatura de fantasia no Brasil é entrar num gueto literário. É ter que se justificar o tempo todo dizendo “mas os livros são bons” ou “eu leio outras coisas também”! É ter gente não te levando a sério.

Na faculdade descobri isso cedo e fui estudar literaturas de língua inglesa. Porque aí sim eu podia ler ficção científica, ficção especulativa, fantasia e tudo mais sem receber aqueles olhares repreendedores. Escrevi uma dissertação sobre distopia. Ninguém torcia o nariz pra isso no departamento de língua inglesa, mas torciam na teoria da literatura ou na literatura comparada. E pior: torciam sem nem saber o que eu estava estudando!

A literatura no Brasil sempre teve uma forte influência francesa, isso desde o romantismo. Temos uma forte tradição de narrativas realistas e isso se intensificou com a ditadura militar: valorizamos o relato, o testemunho, o sobrevivente. Temos um nordeste que passa fome, temos pobreza, miséria. Nossa literatura se ocupa com coisas sérias. Não temos tempo para criaturas com asas ou bruxos em vassouras.

Esse parece ser um consenso geral (estou generalizando aqui, ok? Não estou dizendo que todos são assim e conheço exceções) e é defendido por escritores como a célebre Ruth Rocha. Sim, a literatura serve para problematizar nossa realidade, para denunciar, para mostrar. O problema é que a fantasia também faz isso.

Engana-se quem pensa que fantasia é algo totalmente fora da realidade. Nós humanos só conseguimos falar sobre o humano.

Vamos falar de Harry Potter, que foi novamente trazido à baila. Temos bruxos, feitiços, varinhas, mas tudo isso é usado para discutir preconceito, bullying, corrupção administrativa, morte. Qualquer um que tenha lido a série sabe disso. O problema é que tem gente que nem se presta a ler a série porque é “de fantasia”.

Não é estranho nos países de língua inglesa ler literatura de fantasia. Adultos lêem fantasia. Existe fantasia para todas as idades. Fantasia é normal. É um gênero literário. Pronto. Tem lá seus apedrejadores? Tem, mas não como nessas praias brasileiras, em que “fantasia” se tornou termo pejorativo até no senso comum.

As editoras inventaram até um nome novo para fantasia aqui. Falamos de literatura “fantástica”. Eu sempre detestei isso. Fantástico não é fantasia. É fantasia. Fantástico é um termo para falar de fantasia sem falar que é fantasia e assim as pessoas vão comprar.

O problema é que no fundo, nós gostamos desses mundos fantasiosos. E mais uma vez as editoras nos vêem com outros termos pra dizer que não é fantasia: romance sobrenatural, narrativa fantástica, etc. Até Game of Thrones é vendido por aqui como “uma série muito realista, que até tem dragões, mas não é fantasia não, viu? É muito sério e realista, tem sexo e violência”.

Desculpem, crianças. Game of Thrones é fantasia sim. Sempre foi e sempre será. Existem vários livros de fantasia com sexo e violência. Existe todo tipo de livro de fantasia.

E isso não é um problema.

Mas no Brasil fantasia é sempre algo associado ao infantil, ao não sério, ao fantasioso que não serve pra nada.

No entanto, estamos mudando esse pensamento. Vivemos numa leva de autores de fantasia brasileiros que têm cada vez mais despertado o interesse dos leitores brasucas. Prova de que a modinha a que se refere Ruth Rocha está longe de passar. Na verdade, o que esses leitores estão descobrindo por aqui é que nunca foi uma modinha. Fantasia é um gênero literário.

Avisem às editoras e à academia, por favor.

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Se você quiser encontrar boa fantasia nacional, clique nesse link aqui. São dezenas de resenhas de ótimos autores brasileiros. É fantasia para todos os gostos.

Fonte: Por que Brasileiros não gostam de literatura de fantasia – Livros de Fantasia.
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